(in)Cômodo

Eu poderia tocar o céu para lhe dar uma estrela.  Mas de que adiantaria se, ainda assim, você quisesse o universo?

Na dúvida, meti os pés no chão e plantei-os em meio às vãs certezas cotidianas. Passarinho de gaiola não costuma voar longe. E na jaula, a vida demora bastante pra passar.

Disfarçar o tédio é o que dá mais trabalho, mas depois que se aprende, a coisa flui que é uma beleza. E com tanto transtorno e síndrome disponível no mercado, emoção é o que não falta: uma bipolaridade aqui, uma ansiedade ali, um panicozinho acolá.

Às vezes é de uma simplicidade absurda explicar qualquer coisa que se passa, uma vez que tudo se vê passar ao longo dos olhos, com todos os megapixels que se tem direito.

Para que dormir, se o sonho acontece a todo instante?

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Micro.

Mal levantou da cama e já era quase noite. Não que tivesse sono: simplesmente não sentiu vontade de se mexer. Olhou pela janela do quarto, o céu escurecia e a temperatura baixa fazia o corpo doer ainda mais. O apartamento parecia ainda mais vazio em dias assim, como se toda mobília lhe tivesse sido tirada e nada ali restasse: nem corpo, nem alma, nem voz, só o silêncio.

Viu a hora e se perguntou o que poderia comer, se é que comeria alguma coisa. O estômago ainda não dera sinais de vida até ali. Pensou no chuveiro quente e logo a ideia de um banho demorado pareceu jogar alguma luz ali onde até então só havia sombra. Sim, um bom banho não apenas para se lavar, mas também para se deixar levar. Um de seus pequenos prazeres.

Ligar o chuveiro, deixar correr a água até que o vapor inunde o banheiro, para só então se despir e começar a se lavar é apenas o início de toda uma jornada minuciosa e luxuriante, de onde se sai a cada vez quase que renascido, um diamante recém lapidado, pronto para um novo uso.

Daí em diante, se vestir, escolher o perfume certo para seu humor e ganhar as ruas para mais uma noite inesperada.

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Fluxo

havia alguns rumores sobre suas incertezas dos últimos dias, algumas peles recém colhidas, algumas vozes por sindevidas, esses traços que roem as linhas, esses pontos que matam parágrafos, esses nomes que montam planilhas, suaves brisas indefiníveis, taxiando linhas difusas, mil nomes escritos à noite, mil cores jorrando em fontes, enchentes, enchentes, enchentes, vagueiam soltas em nossos bolsos, caminham em nossos risos, desenham em nossas contas, admitem-se cegas, cessando as pilhas, serras, trilhas, mares e rios, secos e livres, adegas de esfincteres visíveis, mitoses no meio fio, andinos andinos andinos, de noites líquidas, de mortes lúgubres, de carnes célebres, de risos fúnebres, ao longo dos solos curtos, paradas e festejos, guitarras e marimbas, consoles e tratores, dividindo, devastando, diminutos, em sua sede.

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Preguiça

um mundo entreaberto, de véus, cortinas e frestas, diante de olhos ainda pesados, a boca ainda seca, os membros ainda rígidos, um corpo em sonolência, cansado, entorpecido, tragado pela constância, trazido pela insolência, sujo, mundano, esquecido, flor sem raiz, canto sem voz, vácuo indiscreto, ancorado na estiagem, sem pressa e sem medo, sem dor e sem tempero, uma cláusula, um resto a ser partilhado, desbotado, bolorento, supurado, fendido, cinza, opaco, combalido.

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Partilha

queria sair pela noite por aí a bater pernas e bocas, a dizer poucas e boas, a beber quentes e frios, a comer umas e outras. queria música boa e alta, quartos escuros e enfumaçados, luzes das mais diversas cores e intensidades, sem sol e sem lua, sem sono e sem hora, sem pudor e sem limite, pelo tempo que se fizesse presente, passado, futuro do pretérito. queria o tudo querendo o nada, queria a vida querendo a morte, queria o sexo querendo o sexo, queria o vício sem penitência, queria a lágrima dentro do riso, queria um mundo sem universos, um dia a cada segundo, um inteiro a cada dízima, uma hóstia em sua boca, um punho em sua vala, um verme em sua mente, um jato em suas vísceras, um calor dentro do seu frio, um abrigo para sua pele, uma nova indumentária, um novo selo, um código todo outro em si.

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D-scrito

trazido pelo engano,  a contradição, a regra do absurdo, o jogo do sem-sentido, de paradoxos e incongruências, assimetrias e saliências, apêndice, desvio, vertido, tossido, melado, desconstruído, descontinuado, desapropriado, cavalgando a correnteza, sem abrigo e sem certeza, de olhos oblíquos e dentes partidos, de músculos flácidos e ossos roídos, de ouvidos míopes e narizes surdos, cabelos grisalhos e pelos incômodos, incerto, incauto, intruso, inóspitos prazeres, por vir, por ter, aqui, ali, alhures, no êxtimo de toda existência.

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Walkmanic

Andava. E os passos apressados deixavam para trás todo nada, o emaranhado de vozes monótonas, a cacofonia urbana diária, o cotiodiando infinitamente surdo. Na avenida havia a vida,  alegria, alegria,  ali sorria. O ouvido lhe servindo de boca e a boca lhe servindo de cu.

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